Allons enfants…de la revolución!

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10/12/2018 Por José Martins, da Redação da Crítica da Economia

 

Os dirigentes franceses têm uma estranha maneira de apresentar a evolução da sua sociedade de classes. Tudo de cabeça para baixo. Invertendo na imaginação a sequência correta dos fenômenos. Para monsieur Bruno Le Maire, por exemplo, ministro das Finanças da França, os protestos dos “coletes amarelos” provocaram “uma catástrofe” para a economia francesa.

Ele inverte a ordem dos fatores. E aqui esta inversão não é nem um pouco neutra. Para o proletariado, ao contrário, é a catástrofe capitalista da exploração e miséria planetária ameaçando a vida da população trabalhadora que está na origem das atuais manifestações dos “coletes amarelos” por todo o território da França.

Nota bene: de maneira não programada este boletim é uma continuação do anterior: O salário do medo (ou do Armagedom). Agora podemos observar um exemplo de peso de como aquela ameaçadora catástrofe econômica em avançado processo de putrefação do Estado-capital explode nas ruas da segunda maior economia da Europa.

Mais do que simples manifestações contra o aumento dos preços dos combustíveis ou a diminuição conjuntural do poder de compra dos salários. Os movimentos iniciais contra o aumento do preço dos combustíveis foram apenas a gota de gasolina que, como veremos mais abaixo, na avaliação do proletariado, “incendiou a planície”. Que agora já transborda para a Holanda, Bélgica e amedronta os dirigentes da ordem.

“Nestas últimas três semanas, vimos o nascimento de um monstro que escapou de seus criadores”, afirmou nesta sexta-feira (07/12) outro ministro francês. Desta vez foi o ministro do Interior, monsieur Christophe Castaner, referindo-se a esses maciços protestos que surgiram embrionariamente com motoristas vestindo coletes amarelos e irritados com um aumento de impostos sobre combustíveis e que gradativamente assumiu dimensões imprevistas se transformando num movimento generalizado contra o governo e ameaçando a própria existência do Estado.

A França assistiu a quatro finais de semana consecutivas de gigantescas manifestações contra o governo e o regime capitalista. No último sábado (08/12) saíram às ruas de toda a França aproximadamente 130 mil manifestantes. Cifras divulgadas pelas forças da ordem. Façamos de conta que são corretas.

Foram mobilizados em todo o território nacional aproximadamente 90 mil policiais militares! Quer dizer, quase um militar para um manifestante! Esse aparato militar armado pelo Estado francês para reprimir seus próprios cidadãos foi o maior já realizado na história do país. Talvez na Comuna de Paris tenha sido maior. Somando aos soldados alemães de Bismarck. A conferir.

Foram encarcerados mais de 1700 cidadãos. Mais gente que na Bastilha. Ou seja, 1,30% do total de manifestantes. Dados oficiais. Não foi divulgado até agora nenhuma notícia de mortes e nem mesmo o número de feridos na batalha de classes ocorrida sábado.

As cenas de violência da polícia sobre cidadãos desarmados (mulheres em grande parte) documentadas em raras fotos e vídeos são muitíssimo mais fortes do que estamos acostumados a ver em manifestações à população de outros países do centro e mesmo periferia do sistema.

Para o governo e sua corrupta imprensa foi uma manifestação menor e “mais pacífica” que a da semana anterior.

Entretanto, alguém duvida que se trata de uma verdadeira guerra de classes que se avoluma neste momento na Europa? Isso ainda pode parecer  inverossímil porque é um fenômeno ainda em expectativa de ação ou revelação.

Além do mais, neste início de século 21 o real demora mais do que antes para ser revelado e ainda mais para ser divulgado. Nas ultimas décadas as informações da luta de classes são rigidamente controladas e escondidas no totalitário Estado-capital – ou devidamente distorcidas, o que ocorre mais frequentemente. Nem as cenas de guerras externas escapam a esse rígido ocultamento. As do Iraque, Afeganistão, Síria, por exemplo.

A imprensa e demais aparelhos ideológicos burgueses participam organicamente deste aparato de desinformação, repressão e morte. Quase não se divulga, por exemplo, que desde que foram deslanchadas as recentes manifestações populares na França o proletariado já tomou importantes iniciativas para formalizar órgãos próprios de deliberação e organização política para enfrentamento com a burguesia.

Assembleias populares e independentes da ordem burguesa e de qualquer Estado começam a ser instaladas no país. Alternativa proletária ao regime de representação democrática do Estado e de seus manipuladores dirigentes.

Vejamos um desses casos concretos de nascimento do “monstro que escapou de seus criadores”, a que se referiu acima o ministro do Interior da França, monsieur Christophe Castaner.

Os coletes amarelos de Commercy, comunidade autônoma do departamento de Meuse, já fizeram apelo geral por conselhos populares por toda a França. Propõem uma solução política para o movimento: comitês territoriais locais autônomos, democracia direta, assembleia geral soberana, delegados com mandato preciso, revogável a qualquer momento, rotatividade de responsabilidades.

Fazem o chamado também para a federação de conselhos territoriais dessas bases locais para evitar a colaboração política da burocracia sindical, líderes autoproclamados ou delegados sem um mandato imperativo das bases.

Crítica da Economia fez rigorosa e fiel tradução deste manifesto dos trabalhadores de Commercy, tornado público em 17 de Novembro 2018, divulgado em seguida no site independente Manif-Est.Info

Clique aqui para assistir o vídeo deste manifesto do proletariado de Commercy.

A hora da Comuna soa novamente!

 

APELO DOS COLETES AMARELOS DE COMMERCY POR ASSEMBLÉIAS POPULARES EM TODOS OS LUGARES.

RECUSEMOS A RECUPERAÇÃO! VIVA A DEMOCRACIA DIRETA! NENHUMA NECESSIDADE DE “REPRESENTANTES” REGIONAIS!

Por quase duas semanas, o movimento de coletes amarelos colocou centenas de milhares de pessoas nas ruas de toda a França, muitas vezes pela primeira vez. O preço do combustível foi a gota de gasolina que incendiou a planície. O sofrimento, a vergonha e a injustiça nunca foram tão generalizados. Agora, em todo o país, centenas de grupos locais estão se organizando com diferentes maneiras de fazer as coisas.

Aqui em Commercy, no Meuse, temos operado desde o início com assembleias populares diárias, onde cada pessoa participa em igualdade de condição. Organizamos bloqueios da cidade, estações de serviço e barragens seletivas. Na sequência, construímos um galpão na praça central. Nós nos encontramos lá todos os dias para nos organizar, decidir as próximas ações, dialogar com as pessoas e dar as boas-vindas àqueles que se juntam ao movimento. Também organizamos “sopas solidárias” para viver belos momentos juntos e nos conhecermos. Em total igualdade.

Mas eis que o governo e certas facções do movimento propõem nomear representantes por região! Ou seja, algumas pessoas que se tornariam os únicos “interlocutores” das autoridades públicas e abafariam nossa diversidade.

Mas nós não queremos “representantes” que acabem forçosamente falando por nós!

Vejam o problema. Em Commercy, uma delegação isolada se reuniu com o subprefeito, nas outras grandes cidades se reuniu diretamente com o Prefeito. Eles JÁ fizeram aumentar nosso ódio e nossas reivindicações. Eles JÁ sabem que estamos determinados a acabar com esse odioso presidente, esse detestável governo e o sistema podre que eles encarnam!

E é exatamente isso que amedronta o governo! Pois ele sabe que, se ele começa a ceder nos impostos e sobre os combustíveis, ele também terá que recuar nas aposentadorias, os desempregados, o estatuto dos funcionários públicos e todo o resto! Ele também sabe MUITO BEM que corre o risco de intensificar UM MOVIMENTO GENERALIZADO CONTRA O SISTEMA!

Não é para compreender melhor nosso ódio e nossas reivindicações que o governo quer “representantes”. É para nos enquadrar e nos enterrar! Tal como acontece com as direções sindicais, ele procura intermediários, gente com quem ele poderia negociar. Nestes em quem ele pode em seguida controlar e pressionar a dividir o movimento para enterrá-lo.

Eles desprezam a força e a inteligência do nosso movimento. Desprezam o fato que estamos pensando, nos organizando, fazendo evoluir nossas ações que os apavoram tanto e que ampliam o movimento!

E acima de tudo, eles não levam em conta que há uma coisa muito importante: em toda parte, de várias formas, o movimento dos coletes amarelos reivindicam muito além do poder de compra! O que os coletes amarelos reivindicam é o poder ao povo, pelo povo, para o povo. É um novo sistema onde “aqueles que não são nada”, como eles dizem com desprezo, assumem o poder sobre todos aqueles que se empanturram, sobre os dirigentes e sobre os poderosos do dinheiro. É a igualdade. É a justiça. É a liberdade. Eis o que queremos! E isso começa pela base!

Se nomearmos “representantes” e “porta-vozes”, isso nos tornará entes passivos. Pior: vamos rapidamente reproduzir o sistema e funcionar de cima para baixo como os canalhas que nos dirigem. Estes chamados “representantes do povo” que estão enchendo seus bolsos, que fazem leis que apodrecem a vida e servem aos interesses dos ultra ricos!

Não coloquemos nem um dedo na engrenagem da representação e da recuperação. Este não é o momento de delegar nossa palavra a um punhado de indivíduos, mesmo que pareçam honestos. Que escutem a todos nós ou não escutem a ninguém!

A partir de Commercy, portanto, propomos a criação em toda a França de comitês populares, que funcionem em assembleias gerais regulares. Espaços onde se liberta a palavra, onde se ousa se expressar, se preparar, ajudar fraternalmente um ao outro. Se deve haver delegados, é ao nível de cada comitê popular local de coletes amarelos, o mais próximo possível da palavra do povo. Com mandatos imperativos, revogáveis ​​e rotativos. Com transparência. Com confiança.

Propomos também que centenas de grupos de coletes amarelos possuam um galpão como em Commercy, ou uma “casa do povo”, como em Saint-Nazaire, em suma, um lugar de compartilhamento e de organização! E que eles se coordenem, em nível local e provincial, em condição de total igualdade!

É assim que vamos ganhar, porque isso, lá em cima, eles não estão acostumados a controlar! E isso os faz tremer de medo.

Não nos deixaremos ser dirigidos. Não nos deixaremos dividir e recuperar.

Não aos representantes e porta-vozes auto-proclamados! Retomemos o poder sobre nossas vidas! Viva os coletes amarelos em sua diversidade!

VIVA O PODER AO POVO, PELO POVO, PARA O POVO!

 

Fonte: Crítica da Economia

 

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